A Lei e a União entre Judeus e Gentios: A Exegese do Novo Testamento
O Novo Testamento apresenta um equilíbrio entre a continuidade da Lei e a inclusão dos gentios na aliança de D-us, especialmente a partir da obra de Yeshua. Alguns textos, como Gálatas 3:28 e Efésios 2:14-16, falam sobre a remoção das barreiras entre judeus e gentios, mas isso não significa que a Torá foi abolida em sua totalidade. A questão central no Novo Testamento, principalmente nas cartas de Shaul (Paulo), é a maneira como a Lei é cumprida em Yeshua, e como a fé no Messias abre a porta para a reconciliação entre diferentes povos, sem anular as práticas e os princípios da Torá.
A Lei e a Unidade entre Judeus e Gentios
Em Gálatas 3:28, Shaul escreve: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um no Messias Yeshua.” Muitas vezes, esse versículo é mal interpretado, como se a identidade étnica ou de gênero fosse irrelevante após a fé em Yeshua, mas o contexto não sugere que a Torá ou a distinção entre judeus e gentios foi abolida. Pelo contrário, Shaul está abordando a questão das separações sociais e culturais que existiam na sociedade judaica e na relação com os gentios. A Torá, de fato, fazia distinção entre judeus e gentios em questões cerimoniais, como as leis de pureza, os rituais no templo e a proibição de contato direto com gentios em certos contextos.
No entanto, Shaul está dizendo que, no Messias, essas divisões que separavam judeus e gentios não têm mais efeito, pois ambos têm acesso à mesma promessa de salvação e vida eterna. A fé Nazarena, na verdade, não se baseia em uma nova religião separada do judaísmo, mas na continuidade e cumprimento da Torá em Yeshua. A fé em Yeshua, sendo o Messias prometido de Israel, é, na verdade, uma expressão mais profunda do judaísmo, e não algo contrário a ele. A fé no Messias e o judaísmo são, de fato, indivisíveis. A fé Nazarena, portanto, é uma continuidade do judaísmo, com a inclusão dos gentios na aliança de Deus, judeus sendo judeus e gentios sendo gentios, todos sendo crentes no Messias .
A união entre judeus e gentios é celebrada, mas sem a anulação das identidades ou da Lei. No entanto, os gentios precisam entender seu lugar no plano da salvação. Não se trata de substituir o povo judeu ou tentar apagar sua identidade ou papel no plano de D-us, como se agora fossem "os novos judeus". Essa visão é distorcida e desrespeitosa. No Messias, judeus e gentios são um, mas isso não implica que os gentios devam "gentilizar" os judeus ou tentar transformar o judaísmo em algo que se assemelha à sua própria cultura ou práticas. Cada povo tem sua identidade única, e os gentios precisam respeitar o lugar especial que Israel ocupa no plano divino, sem tentar apagar essa identidade.
Efésios 2:14-16 esclarece isso quando diz: “Pois ele é a nossa paz, que de ambos fez um, e derrubou a parede de separação, a hostilidade, abolindo na sua carne a lei dos mandamentos expressos em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz.” Nesse texto, Shaul refere-se à separação cerimonial que existia entre judeus e gentios, uma separação que estava enraizada em mandamentos cerimoniais, como as leis alimentares, as leis de pureza e a exclusão dos gentios do templo. O que Shaul afirma é que Yeshua, ao cumprir a Lei, destruiu essas barreiras, permitindo que gentios e judeus sejam reconciliados com D-us, e entre si, sem as distinções cerimoniais que antes existiam.
A abolição dessas barreiras cerimoniais não significa a abolição da Torá ou que a Lei não é mais relevante. Pelo contrário, o cumprimento dos mandamentos morais da Torá continua a ser um fundamento para a vida cristã, agora vivida pela graça e no Espírito, e não de acordo com as obras da carne.
O Batismo como Imersão: A Purificação e o Novo Pacto em Yeshua
Em relação ao batismo mencionado nos textos gregos, é fundamental entender que a palavra "batismo" é, na verdade, uma tradução do termo grego “báptisma”, que significa imersão ou mergulho. Essa prática tem raízes profundas no judaísmo, onde a imersão era usada como um rito de purificação. Na Torá e na tradição judaica, quando alguém estava impuro – seja por razões cerimoniais ou morais – era necessário passar por um processo de imersão, também conhecido como mikvá, para restaurar a pureza e a santidade diante de D-us.
O batismo de Yeshua não são uma invenção ou uma novidade no contexto religioso, mas uma continuação dessa prática judaica de purificação. A diferença crucial, no entanto, é que, em Yeshua, há somente uma imersão, que é suficiente para purificar o crente e estabelecer sua nova identidade como filho de D-us e membro do corpo do Messias.
O imersão de Yeshua não é uma repetição contínua de rituais de purificação, como acontecia antes de Yeshua e ainda acontece no judaísmo sem Yeshua, mas sim um ato simbólico e definitivo. No Messias, a imersão não é apenas um rito de purificação, mas uma identificação com a morte, sepultamento e ressurreição de Yeshua. Isso significa que, ao ser imerso, o crente não está apenas sendo purificado cerimonialmente, mas está sendo integrado ao novo pacto, em que a graça de D-us é derramada sobre ele, sem a necessidade de continuar a seguir alguns rituais cerimoniais do Antigo Testamento.
Hebreus 10:22 fala sobre isso, dizendo: "Aproximemo-nos de D-us com um coração sincero e com plena certeza de fé, tendo os corações purificados de uma má consciência e o corpo lavado com água pura." Aqui, a "água pura" se refere a uma imersão simbólica que representa a purificação total que ocorre no novo pacto por meio de Yeshua.
Portanto, o batismo, ou imersão, em Yeshua, não é algo a ser repetido para a purificação contínua, como nas práticas judaicas anteriores, mas um único ato que simboliza a total entrega ao Messias e a restauração completa da relação com D-us.
O Caso de Cornélio: A Lei que Divide os Gentios
Em Atos 10, vemos um evento crucial na história da Igreja primitiva: a visita de Kefa (Pedro) à casa de Cornélio, um centurião romano e gentio. Antes dessa visita, a Lei judaica proibia que judeus entrassem em casas de gentios, considerando-os impuros. Essa separação cerimonial é abordada diretamente quando, em uma visão, Kefa (Pedro) recebe uma mensagem divina dizendo: “Não chames impuro ao que Deus purificou.” (Atos 10:15). O que Kefa compreende nessa visão é que a barreira cerimonial que impedia os judeus de se associar aos gentios foi removida pela morte e ressurreição de Yeshua.
Isso não significa que a Torá foi abolida ou que os gentios agora deveriam deixar de seguir qualquer princípio moral que a Torá ensinava. Pelo contrário, a visão de Kefa revela que a Lei cerimonial, que distinguia judeus e gentios, foi cumprida no Messias, permitindo que os gentios fossem incluídos no pacto de salvação sem a necessidade de cumprir os rituais de purificação judaicos. O ponto central aqui não é a anulação da Torá, mas a remoção das barreiras cerimoniais que separavam os gentios dos judeus.
A Implicação de uma Interpretação Errada da Inclusão dos Gentios
Se interpretássemos Gálatas 3:28 e outros textos como se a identidade judaica tivesse sido anulada pela fé em Yeshua, poderíamos cair no erro de entender que qualquer distinção cultural ou identidade não seria mais relevante. Essa leitura poderia, inclusive, ser usada para justificar a eliminação de outras distinções morais e sociais, como a diferença entre homens e mulheres ou entre comportamentos morais e imorais, como o caso do homossexualismo. Contudo, isso seria uma interpretação equivocada do texto. Shaul, ao falar sobre a inexistência de judeu nem grego, homem ou mulher, não está dizendo que a Lei de Deus foi abolida ou que as identidades de gênero ou étnicas não importam mais, mas sim que a barreira social e cerimonial entre judeus e gentios foi quebrada no Messias. A fé em Yeshua unifica todos os crentes, independentemente de sua origem, e os torna participantes iguais nas promessas de D-us, mas isso não significa que as identidades culturais ou as normas morais da Torá foram descartadas.
A inclusão dos gentios, como evidenciado pelo exemplo de Cornélio e a visão de Kefa, mostra que os gentios são chamados a se integrar à aliança de D-us sem a necessidade de adotar todas as práticas cerimoniais exclusivas dos judeus. No entanto, isso não significa que eles não devem viver de acordo com os princípios morais da Torá, que continuam sendo a expressão da vontade de D-us para a humanidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário